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sábado, 8 de maio de 2021

Carta de Richard Dawkins para sua filha


Querida Juliet,

Agora que você fez dez anos, quero lhe escrever sobre algo que é muito importante para mim.

Você já se perguntou sobre como sabemos as coisas que sabemos? Como sabemos, por exemplo, que as estrelas, que parecem pequenos pontos no céu, são na verdade grandes bolas de fogo como o Sol e ficam muito longe? E como sabemos que a Terra é uma bola menor, girando ao redor de uma dessas estrelas, o Sol?

A resposta para essas perguntas é "provas". Às vezes "prova" significa realmente ver (ou ouvir, ou sentir, cheirar...) que algo é verdade.

Astronautas viajaram longe o suficiente da Terra para ver com seus próprios olhos que ela é redonda. Às vezes nossos olhos precisam de ajuda. A "Estrela-D'alva" parece uma sutil cintilação no céu, mas com um telescópio você pode ver que ela é uma linda bola – o planeta que chamamos de Vênus. Uma coisa que você aprende diretamente vendo (ou ouvindo, ou cheirando...) é chamada de observação.

Frequentemente, a prova não é só uma observação por si só, mas há sempre observações em sua base. Se aconteceu um assassinato, é comum ninguém (menos o assassino e a pessoa morta!) ter visto o que aconteceu. Mas os detetives juntam diversas observações que podem apontar na direção de um suspeito. Se as impressões digitais de uma pessoa coincidirem com as encontradas num punhal, isso é uma prova de que ela tocou nele. Isso não prova que ela cometeu o assassinato, mas pode ser uma informação útil, junto com outras provas. Às vezes um detetive consegue pensar sobre várias observações e então de repente perceber que todas se encaixam e fazem sentido se fulano de tal cometeu o crime.

Os cientistas – os especialistas em descobrir o que é verdade sobre o mundo e o universo – frequentemente trabalham como detetives. Eles dão um palpite (chamado de hipótese) sobre o que talvez seja verdade. Depois dizem para si mesmos: "Se isso realmente for verdade, devemos observar tal coisa". Isso é chamado de previsão. Por exemplo, se o mundo realmente for redondo, podemos prever que um viajante que caminhar continuamente numa mesma direção acabará no ponto de onde partiu.

Quando um médico diz que você está com sarampo, ele não olhou para você e viu sarampo. A sua primeira observação lhe fornece a hipótese de que você talvez tenha sarampo. Então ele diz para si mesmo: se ela realmente está com sarampo, devo encontrar... E ele então consulta sua lista de previsões e testa-as usando seus olhos (você está com pintas?), mãos (sua testa está quente?) e ouvidos (seu peito está com um chiado?). Só então ele toma a decisão e diz: "Meu diagnóstico é que essa criança está com sarampo". Às vezes, os médicos precisam fazer outros testes, como exames de sangue ou raios-X, que ajudam seus olhos, mãos e ouvidos a fazer observações.

O modo como os cientistas usam provas para aprender sobre o mundo é muito mais engenhoso e complicado do que consigo dizer numa breve carta. Mas agora quero deixar de lado as provas, que são uma boa razão para crer em algo, e alertá-la sobre três más razões para acreditar em algo. Elas se chamam "tradição", "autoridade" e "revelação".

Primeiro, a tradição. Alguns meses atrás, fui à televisão para ter uma conversa com cerca de cinquenta crianças. Essas crianças foram convidadas por terem sido criadas segundo diferentes religiões: algumas como cristãs, outras judias, mulçumanas, hindus ou sikhs. Um homem com um microfone ia de criança em criança, perguntando no que acreditavam.

O que elas responderam mostra exatamente o que quero dizer com "tradição". Suas crenças não tinham nenhuma relação com provas. Elas simplesmente papagaiavam as crenças de seus pais e avós que, por sua vez, também não eram baseadas em provas.

Elas diziam coisas como: "Nós, hindus, acreditamos em tal e tal"; "Nós, muçulmanos, acreditamos nisso e naquilo"; "Nós, cristãos, acreditamos numa outra coisa".

Como todas acreditavam em coisas diferentes, nem todas poderiam estar certas. O homem com o microfone parecia achar que isso não era um problema, e nem tentou fazê-las discutir suas diferenças entre si. Mas não é isso que quero enfatizar no momento. Eu simplesmente quero analisar de onde vieram as crenças. Vieram da tradição. Tradição significa crenças passadas do avô para o pai, deste para o filho, e assim por diante. Ou por meio de livros passados através das gerações ao longo dos séculos. Crenças populares frequentemente começam de quase nada; talvez alguém simplesmente as invente, como as histórias sobre Thor e Zeus. Mas depois de terem sido transmitidas por alguns séculos, o simples fato de serem tão antigas as faz parecer especiais. As pessoas acreditam em coisas simplesmente porque outras pessoas acreditaram nessas mesmas coisas ao longo dos séculos. Isso é tradição.

O problema com a tradição é que, independentemente de há quanto tempo a história tenha sido inventada, ela continua exatamente tão verdadeira ou falsa quanto a história original. Se você inventar uma história que não seja verdadeira, transmiti-la através de vários séculos não vai torná-la verdadeira!

A maioria das pessoas na Inglaterra foi batizada pela Igreja anglicana, mas esse é apenas um entre muitos ramos da religião cristã. Há outras divisões, como a ortodoxa russa, a católica romana e as metodistas. Todas acreditam em coisas diferentes. A religião judaica e a mulçumana são um pouco diferentes; e há ainda diferentes tipos de judeus e mulçumanos. Pessoas que acreditam em coisas um pouco diferentes umas das outras vão à guerra por causa de discordâncias. Então você talvez imagine que eles têm boas razões – provas – para acreditar naquilo que acreditam. Mas, na realidade, suas diferentes crenças são inteiramente decorrentes de tradições.

Vamos falar sobre uma tradição em particular. Católicos romanos acreditam que Maria, a mãe de Jesus, era tão especial que ela não morreu, mas acendeu ao Céu. Outras tradições cristãs discordam, e dizem que Maria morreu como qualquer pessoa. Outras religiões não falam muito nela e, de modo diferente dos católicos romanos, não a chamam de "Rainha do Céu". A tradição segundo a qual o corpo e Maria foi levado ao Céu não é muito antiga. A Bíblia não diz nada sobre como ou quando ela nasceu; aliás, a pobre mulher mal é mencionada na Bíblia. A crença de que seu corpo foi levado ao Céu não foi inventada até cerca de seis séculos após a época de Jesus. No início, só foi inventada, da mesma forma que qualquer história, como "Branca de Neve". Mas, no transcorrer dos séculos, ela se tornou uma tradição e as pessoas começaram a levá-la a sério simplesmente porque a história havia sido transmitida ao longo de tantas gerações. Quanto mais velha a tradição se tornava, mais as pessoas a levavam a sério. Ela foi por fim escrita como uma crença católica romana oficial muito recentemente, em 1950, quando eu tinha a idade que você tem hoje. Mas a história não era mais verdadeira em 1950 do que quando foi inventada, seiscentos anos após a morte de Maria.

Vou voltar à tradição no fim de minha carta, e olhá-la de outro modo. Mas antes preciso tratar das outras duas más razões para crer em alguma coisa: autoridade e revelação.

Autoridade enquanto razão para crer em algo significa acreditar porque alguém importante ordenou que você acreditasse. Na Igreja católica romana, o papa é a pessoa mais importante, e as pessoas acreditam que ele deve estar certo só porque ele é o papa. Num dos ramos da religião muçulmana, as pessoas importantes são velhos barbados chamados de aiatolás. Muitos muçulmanos se dispõem a cometer assassinatos simplesmente porque aiatolás de um país distante deram essa ordem.

Quando digo que só em 1950 os católicos romanos foram finalmente informados que tinham que acreditar que o corpo de Maria havia subido para o Céu, quero dizer que em 1950 o papa disse que isso era verdade, e então tinha que ser verdade! É claro que algumas coisas que o papa disse ao longo de sua vida devem ser verdade e outras não. Não há nenhuma boa razão para você acreditar em tudo que ele diz mais do que você haveria de acreditar nas coisas que muitas outras pessoas dizem, só porque ele é o papa. O papa atual ordenou às pessoas que não controlasse o número de filhos que vão ter. Se sua autoridade for seguida com a obediência que ele deseja, os resultados poderão ser uma terrível escassez de alimentos, doenças e guerras, causadas por superpopulação.

É claro que, mesmo na ciência, às vezes nós mesmos não vemos as provas e temos de acreditar no que foi dito por outra pessoa. Eu não vi, com os meus próprios olhos, que a luz viaja à velocidade de 300 mil quilômetros por segundo. Mas acredito em livros que me dizem qual é a velocidade da luz. Isso parece "autoridade". Mas na realidade é muito melhor que autoridade, porque as pessoas que escreveram o livro viram as provas, e qualquer um de nós pode examinar as provas com atenção no momento que quiser. Isso é muito confortante. Mas nem mesmo os padres afirmam que há provas para a história de que o corpo de Maria subiu para o Céu.

A terceira má razão para acreditar em algo é "revelação". Se você tivesse perguntado ao papa, em 1950, como ele sabia que o corpo de Maria tinha subido ao Céu, ele provavelmente teria dito que isso lhe fora revelado. Ele se fechou num quarto e rezou, pedindo orientação. Sozinho, ele pensou e pensou, e na sua intimidade teve mais e mais certeza de suas ideias. Quando pessoas religiosas têm uma simples sensação de que algo deve ser verdade, mesmo que não haja provas de que o seja, eles chamam sua sensação de "revelação". Não só os papas afirmam ter revelações. Isso também acontece com muitas pessoas religiosas. É uma de suas principais razões para acreditar naquilo que acreditam. Mas isso é bom ou ruim?

Suponha que eu lhe dissesse que seu cachorro está morto. Você provavelmente ficaria muito triste, e talvez dissesse: "Você tem certeza? Como você sabe? Como aconteceu?". Suponha então que eu respondesse: "Na verdade, eu não sei se Pepe está morto. Eu não tenho provas. Só tenho uma sensação esquisita, bem dentro de mim, de que ele está morto". Você ficaria muito zangada comigo por tê-la assustado, porque você sabe que uma "sensação" por si só não é uma boa razão para acreditar que um cachorro está morto. Você precisa de provas. Todos temos sensações e pressentimentos de tempos em tempos, e descobrimos que às vezes estavam certos, às vezes não. De qualquer forma, pessoas diferentes podem ter sensações opostas, então como decidir quem teve a intuição correta? O único jeito de ter certeza de que um cachorro está morto é vê-lo morto, ou ouvir que seu coração parou de bater, ou obter essa informação de uma pessoa que viu ou ouviu alguma prova de que ele está morto.

As pessoas às vezes dizem que devemos acreditar em sensações íntimas, senão você nunca teria certeza de coisas como "Minha esposa me ama". Mas esse é um argumento ruim. Pode haver muitas provas de que alguém ama você. Durante todo o dia em que você está com alguém que a ama, você vê e ouve pequenas provas, e elas se somam. Não é somente uma sensação interior, como a sensação que os padres chamam de revelação. Há outras coisas para apoiar a intuição: olhares, um tom carinhoso de voz, pequenos favores e gentilezas; tudo isso serve de prova.

Certas pessoas têm forte sensação de que alguém as ama sem que isso esteja baseado em provas, e então é provável que estejam completamente enganadas. Há pessoas com uma forte intuição de que um astro do cinema está apaixonado por elas, mas na realidade o astro de cinema nem sequer as encontrou. Pessoas assim são doentes da cabeça. Sensações íntimas ou intuições precisam ser apoiadas por provas, senão você simplesmente não pode confiar nelas.

As intuições são valiosas na ciência também, mas só para lhe dar ideias que você então testa, procurando provas. Um cientista pode ter um "pressentimento" sobre uma ideia que ele "sente" estar correta. Por si só, isso não é uma boa razão para acreditar nela. Mas pode ser uma razão para passar algum tempo fazendo experimentos, ou à busca de provas. Cientistas usam a intuição o tempo todo para ter ideias. Mas elas não valem nada até que sejam apoiadas por provas.

Eu prometi que voltaria à tradição, para examiná-la de outro modo. Quero explicar o que a tradição é tão importante para nós. Todos os animais são construídos (pelo processo chamado de evolução) para sobreviver no local em que seus semelhantes vivem. Leões são construídos para sobreviver nas planícies da África. O lagostim é construído para sobreviver na água doce, enquanto as lagostas são adaptadas para a vida na água salgada. As pessoas também são animais, e somos construídos para viver bem no mundo cheio de... outras pessoas. A maioria de nós não caça para obter comida, como as lagostas ou os leões; nós a compramos de pessoas que, por sua vez, a compram de outras pessoas. Nós "nadamos" num "mar de pessoas". Assim como um peixe precisa das brânquias para sobreviver na água, as pessoas precisam do cérebro que as torna capazes de se relacionarem umas com as outras. Assim como o mar está cheio de água salgada, o mar de pessoas está cheio de coisas difíceis de aprender. Como a linguagem.

Você fala inglês, mas sua amiga Ann-Kathrin fala alemão. Cada um de vocês fala a língua que lhes permite "nadar" no seu "mar de pessoas". A linguagem é transmitida por tradição. Não há outra alternativa. Na Inglaterra, Pepe é um dog. Na Alemanha, ele é ein Hund. Nenhuma dessas palavras é mais correta ou verdadeira do que a outra. As duas foram transmitidas ao longo do tempo, só isso. Para serem boas em "nadar no seu mar de pessoas", as crianças têm que aprender a língua de seu país, e muitas outras coisas sobre o seu povo; e isso só quer dizer que elas precisam absorver, como papel mata-borrão, uma enorme quantidade de informações sobre tradições (lembre que essas informações são aquelas passadas dos avós para pais e deste para filhos). O cérebro da criança tem que absorver informações sobre tradições. Não é de se esperar que a criança consiga separar a informação boa e útil, como as palavras de uma língua, das informações ruins e tolas como acreditar em bruxas, demônios e virgens imortais.

É uma pena – mas não deixa de ser assim – que, por serem sugadoras da informação sobre tradições, as crianças possam acreditar em qualquer coisa que os adultos lhes digam. Não importa se é falso ou verdadeiro, certo ou errado. Muito do que os adultos dizem é verdadeiro e baseado em provas, ou pelo menos sensato. Mas se parte do que é dito é falso, tolo ou até malvado, não há nada para impedir as crianças de acreditarem naquilo também. E quando as crianças crescerem o que farão? Bom, é claro que contarão as histórias para a próxima geração de crianças. Então, uma vez que uma ideia se torna uma crença arraigada – mesmo que seja completamente falsa e nunca tenha havido uma razão para acreditar nela –, pode durar para sempre.

Será isso o que aconteceu com as religiões? A crença de que há um Deus ou deuses, crença no Céu, crença em que Maria nunca morreu, que Jesus nunca possuiu um pai humano, que as rezas são respondidas, que vinho se torna sangue – nenhuma dessas crenças é apoiada por boas provas. E, no entanto, milhões de pessoas acreditam nelas. Talvez isso ocorra porque elas foram levadas a acreditar nessas coisas quando eram tão jovens que aceitavam qualquer coisa.

Milhões de pessoas acreditam em coisas bem diferentes, porque diferentes coisas lhes foram ensinadas quando eram crianças. Coisas diferentes são ditas para crianças muçulmanas e cristãs, e ambas crescem totalmente convencidas de que estão certas e as outras erradas. Mesmo entre cristãos, católicos romanos acreditam em coisas diferentes dos anglicanos ou de pessoas como os shakers [adeptos da Igreja Milênio] ou quacres, mórmons ou Holy Rolers, e todos estão plenamente convencidos de que estão certos e os outros errados. Acreditam em coisas diferentes exatamente pela mesma razão que você fala inglês e Ann-Kathrin fala alemão. Ambas as línguas são, em seu próprio país, a língua certa para se falar. Mas não pode ser verdade que religiões diferentes estão corretas em seus próprios países, pois religiões diferentes afirmam que coisas opostas são verdadeiras. Maria não pode estar viva na Irlanda do Sul (um país católico) e morta na Irlanda do Norte (que é protestante).

O que podemos fazer sobre tudo isso? Não é fácil para você fazer alguma coisa, porque você só tem dez anos. Mas você pode experimentar o seguinte: da próxima vez que alguém lhe disser algo que parecer importante, pense: "Será que isso é o tipo de coisa que as pessoas sabem por causa de provas? Ou será o tipo de coisa em que as pessoas acreditam só por causa de tradição, autoridade ou revelação?". E, da próxima vez que alguém lhe disser que uma coisa é verdade, por que não perguntar: "Que tipo de prova há para isso?". E, se ela não puder lhe dar uma boa resposta, eu espero que você pense com muito carinho antes de acreditar em qualquer palavra daquilo que foi dito.

De seu querido Papai,
Richard Dawkins

sexta-feira, 12 de abril de 2019

A primeira foto real de um buraco negro


O dia 10 de abril de 2019 entrou pra história da ciência. Foi o dia em que a primeira foto real de um buraco negro foi divulgada para o mundo.
            Os buracos negros sempre foram astros misteriosos para a ciência. Muito do que se conhece sobre esses corpos celestes advêm da física teórica e/ou de observações indiretas.
            Um buraco negro é um corpo que apresenta uma massa tão grande concentrada em um pequeno espaço que faz com que toda informação que passe pelo horizonte de eventos seja sugada para o seu centro e se prenda, ficando ali aprisionada (ou mesmo seja destruída, quanto a isso pouco se sabe).
E no dia 10 passado, a rede de telescópios de abrangência mundial chamada de Event Horizon, liberou a imagem conseguida a partir dos algoritmos feitos com a liderança de Katie Bouman, cientista da computação do MIT (o que engrandece ainda mais o papel das mulheres na ciência).
O buraco negro fotografado foi o da galáxia M87, um gigante com 40 bilhões de quilômetros de diâmetro e com uma massa de 6,5 bilhões de vezes a do sol. O feito ainda foi maior pela distância em que o corpo está da Terra: 500 milhões de trilhões de quilômetros.
O halo de luz que vemos não é emitido pelo buraco negro, mas sim do gás superaquecido que cai em sua direção.
As perspectivas a partir de agora são enormes, de modo que essa imagem possa ser usado em futuros estudos para se verificar o funcionamento desse tipo de corpo que está por aí pelo universo a fora.

FONTE:

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Nova forma geométrica


Qual seria a sua reação se soubesse que existe uma nova forma geométrica que você não estudou na escola, mas que existe naturalmente na natureza?
Pois é. Essa forma existe e se chama Scutoid (ou Escutoide em português) e foi descoberta por pesquisadores da Universidade de Sevilha e Universidade de Lehigh e pulicada no periódico Nature Communications em 2018.
O Scutoid pode ser observado no epitélio de peixes-zebra, nas células das glândulas salivares de moscas-das-frutas, no formato das células das axilas, nariz e rosto em humanos, além de outros organismos.



Essa forma geométrica parece um prisma de cinco lados com uma diagonal cortada em uma extremidade.
Esse novo conhecimento, apesar de parecer um tanto quanto bobo, será importante para que os pesquisadores, ao desenvolverem tecidos in vitro, saibam como determinadas células, principalmente aquelas que formam superfícies, devem estar modeladas para melhor nutrição e melhor justaposição, uma vez que tais superfícies podem apresentar curvaturas.


Dúvidas, críticas e sugestões: lourivaldias@gmail.com

FONTES:
GÓMEZ-GÁLVEZ, P.; VICENTE-MUNUERA, P.; TAGUA, A.; FORJA, C.; CASTRO, A. M.; LETRÁN, M.; VALENCIA-EXPÓSITO, A.; GRIMA, C.; BERMÚDEZ-GALLARDO, M.; SERRANO-PÉREZ-HIGUERAS, Ó.; CAVODEASSI, F.; SOTILLOS, S.; MARTÍN-BERMUDO, M. D.; MÁRQUEZ, A.; BUCETA, J. & ESCUDERO, L. M. 2018. Scutoids are a geometrical solution to three-dimension packing of epithelia. Nature Communications 9

Até!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Os sistemas de Classificação ao longo do tempo


Desde muito tempo atrás o ser humano visualizou a importância de se classificar os organismos vivos, indo nos mesmos moldes da classificação que se fazia para objetos.
Assim, por essa necessidade de se classificar para, principalmente, abstrair informações e conhecimento do material foco, surgiu a ciência da Taxonomia e da Sistemática Filogenética. Mas vamos pelo começo.
Aristóteles, o qual já falei do seu papel na zoologia nesse post, desenvolveu um sistema aristotélico de classificação usado até hoje nos primeiros anos do ensino fundamental. Nesse sistema o universo material poderia ser dividido em três reinos: Animal, Vegetal e Mineral. Sendo que apenas dois reinos eram reconhecidos para os organismos vivos.
As ideias de Aristóteles permaneceram na história e foram redescobertas e remodeladas pelo sueco Carl von Linné, o qual descreveu em seu Systema Naturae a forma pela qual devemos nomear os organismos. Para Linné, assim como era para Aristóteles, a vida também era dividida em dois reinos: Animalia e Plantae.
Em 1866, E. Haeckel, um famoso ecólogo, verificando a existência de “pequenos animais” ou de “animálculos”, criaturas unicelulares, mas com capacidade de movimento, determinou um reino para estes, denominando-o de Reino Protista. Assim, Haeckel propôs três reinos para organizar a vida: Animalia, Plantae e Protista.
Outro autor, no ano de 1938, Copeland propôs uma divisão dos organismos vivos em quatro reinos: Animalia, Plantae, Protista e Monera. Este último, criado pelo próprio Copeland, reunia as bactérias, organismos unicelulares que não apresentavam núcleo celular organizado, ou seja, sem membrana nuclear ou carioteca.
O tempo passou e no ano de 1969, Whittaker veio a propor os cinco reinos da vida, com a criação do reino mais novo: Fungi. Os cinco reinos propostos por Whittaker eram: Monera, Protista, Fungi, Plantae e Animalia. Os indivíduos pertencentes ao agrupamento Fungi foram por muito tempo tratados como plantas, mas várias características foram verificadas pertencerem tanto a plantas quanto a animais.
Em 1977, outro pesquisador, C. Woese, propôs a separação do reino Monera de Copeland em dois grupos Bacteria e Archaea, essa separação se daria por conta da bioquímica das membranas celulares que são completamente diferentes, além de Archaea conter seres mais extremófilos. Posteriormente, um novo nível hierárquico foi proposto acima de Reinos: os Domínios. Woese definiu que acima dos reinos a vida era dividida em três domínios: Bacteria, Archaea e Eukarya.
Assim, o Reino Monera não seria mais um grupo monofilético, sendo separado nos Domínios Bacteria e Archaea; em Eukarya estariam todos os organismos que apresentam membrana nuclear ou também chamada de Carioteca.
Houveram, também, algumas proposições para os taxa internos à Eukarya. Essas proposições foram organizadas por Fehling, Stoecker & Bauldaf (2007).
E o que temos atualmente?
Hoje se reconhece tanto Reinos quanto Domínios os níveis hierárquicos mais elevados da classificação dos seres vivos. Sendo que muitos ainda consideram a ideia dos Cinco Reinos, bem como a de Domínios, mesmo sabendo que um Reino deixa de ser monofilético.
Dúvidas, Críticas e Sugestões: lourivaldias@gmail.com
Até!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Pitágoras


Pitágoras foi um filósofo e matemático grego que viveu entre os anos 570 e 497 a. C., nascido na ilha de Samus, filho de Pythais e do mercador Mnesarchus, foi treinado pelos melhores professores, dentre eles Temistocléia, mestre de Pitágoras, alta profetisa, filósofa e matemática. Anaximandro, discípulo de Tales de Mileto, também viria a ser seu professor. Aprendeu a tocar lira, além de aritmética, geometria, astronomia e poesia.
Pitágoras é considerado o fundador da cultura científica ocidental, ou pelo menos, um dos fundadores, e ter estudado com Anaximandro foi muito importante para sua formação como pensador. O tutor produziu muito conhecimento como mapas estelares; dizia que o sol era muito maior que a Terra; inventou o relógio de sol; foi um dos primeiros a desenhar o mundo o imaginando com uma forma curva; dentre outras hipóteses.
Apesar do termo “matemático(a)” ser usado acima, foi esse pensador o primeiro a usar o termo, além de filósofo (que em grego quer dizer “amante da sabedoria”) e metempsicose nos sentidos que são usados até hoje.
Sua história é marcada por muitas viagens, começando no ano de 535 a. C. quando foge de Samus, que estava sob julgo do tirano Policrastes, e ruma para o Egito, onde adquiriu aprofundamento em seus estudos da matemática, pois era considerado mais culto que a Grécia, principalmente no que tange à matemática. Até mesmo Aristóteles disse que “No Egito tiveram início as ciências matemáticas, pois lá a nação dos sacerdotes gozava de tempo livre”.


Em 525 a. C. a região foi dominada pelo rei persa Cambises I, Pitágoras foi capturado e levado para Babilônia, lá conhece o sarcedote Mago, seguidor de Zoroastro, que passa a lhe ensinar questões espirituais. Quando Policrastes e Cambises morreram, o filósofo volta para Samus, fundando ali sua escola de filosofia, chamada de Semicírculo, no ano de 522 a. C. Sai novamente de sua cidade natal e se dirige para o sul da Itália, estabelecendo-se em Crotona, onde se casa e funda sua Escola Espiritual, mas por conta de perseguições políticas torna a se mudar, dessa vez para Metaponto, onde morreu entre 496 ou 497 a. C.
O princípio fundamental das ideias de Pitágoras era que “Tudo é número”, o cosmo seria regido pela matemática, os números indicavam harmonia e a essência das coisas. Essa é a base para a sua Teoria da Harmonia das Esferas, a qual diz que os astros do firmamento está girando ao redor da Terra ligados a grandes esferas concêntricas ao planeta.
Pitágoras chegou a criar uma espécie de religião baseada nos números, chamada de Pitagorismo, onde ele era o líder, e onde os números eram a resposta para tudo. Essa religião tinha até símbolo sagrado: o pentagrama. Para o Pitagorismo os números seriam interpretados na realidade sob a forma de 4 elementos: terra, água, ar e fogo. Essa filosofia estava entre a ciência, ou conhecimento crítico, e a magia.
Essa questão mística é bem representada em aspectos morais e comportamentais tanto de Pitágoras quanto de seus seguidores. Por exemplo, as almas haviam vivido vidas anteriores em outros corpos (até mesmo em plantas) essa era a base moral da sua religião. Pitágoras proferia grandes sermões para seus discípulos e também para animais. Além disso, haviam vários comportamentos que deveriam ser seguidos como: não comer feijão, não dar a primeira mordida em um pedaço de pão, não deixarem andorinhas fazerem ninho no próprio telhado, etc.
A questão do feijão era por conta das flatulências. Para Pitágoras peidar não era apenas desagradável para outra pessoa, era também para aquele que soltava, pois por meio dele você perdia parte da sua força vital, já que era o ar que nos permite viver.
Efeitos miraculosos também giram em torno de seu comportamento: uma vez uma cobra venenosa o mordeu e ele a mordeu de volta e a matou; em outra ocasião apareceu em duas cidades ao mesmo tempo onde aconselhou alguns pescadores sem sorte a jogarem de novo suas redes (Já ouvi essa história em algum lugar).
No campo das ciências uma das maiores descobertas do filósofo foi no domínio da geometria, onde desenvolveu o Teorema de Pitágoras no qual diz que “Em todo triângulo retângulo, a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa”. Além dessa descoberta também desenvolveu a ideia da série harmônica na música, utilizando os conceitos de razão e proporção.
Pitágoras nada escreveu, de modo que o que sabemos vem de relatos orais e de escritos de seus discípulos, assim não há comprovação de que o teorema que leva seu nome seja de sua autoria. O Teorema de Pitágoras pode ter sido obra apócrifa, segundo alguns historiadores.
O Pitagorismo absorveu muitos aspectos do Neoplatonismo (o qual tinha influenciado muito o cristianismo), porém, com o tempo, passou a ser visto pelo Cristianismo como uma heresia. A “religião” de Pitágoras foi ressuscitada 1000 anos depois com as ideias humanistas do Renascimento e foi considerado como o pai das ciências exatas, sendo que sua influência continua até os dias atuais.
Mais informações da vida e ora, bem como as ideias que precederam o pensamento de Pitágoras, podem ser lidas no livro de Paul Strathern “Pitágoras e seu Teorema em 90 minutos”, lançado no Brasil pela editora Zahar e que trás de uma forma bastante direta é rápida o desenvolvimento de sua ciência e do Pitagorismo como filosofia religiosa.
Dúvidas, críticas e sugestões: lourivaldias@gmail.com
Até!

FONTES:
TRATHERN, P. 2011. Pitágoras e seu teorema em 90 minutos. Rio de Janeiro: Editora Zahar.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Comparação do tamanho dos astros no Universo

O canal Harry Evett, no YouTube, é responsável por fazer vários vídeos relacionados à ciência, um desses vídeos mostra a comparação do tamanho dos astros no universo.
É um vídeo maravilho que mostra como somos minúsculos diante de uma magnitude cósmica tremenda.

Esse vídeo foi publicado em 2017:


Mas há uma versão de 2018:


É possível ver outros vídeos comparativos no canal como o de tamanhos de algumas luas conhecidas (interessante notar que nem sempre luas tem o formato esférico peculiar que estamos acostumados a ver).


Espero que gostem.
Dúvidas, críticas e sugestões: lourivaldias@gmail.com
Até!

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O peso da vida


Às vezes achamos que, por conta do fato de hoje a população humana ter atingido a marca de cerca de 7 bilhões de indivíduos (e contando), somos a espécie predominante e aquela que mais “pesa” sobre a superfície da Terra.
Porém, um artigo publicado em 2018 no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS), intitulado “The Biomass distribution on Earth”, mostrou justamente o contrário, entre outras informações interessantes. O objetivo desse artigo foi quantificar a composição da biomassa geral da biosfera, uma vez que, segundo os autores, o censo da biomassa da Terra é a chave para entender a estrutura e dinâmica da biosfera.
Bar-On, Phillips e Milo, autores do artigo, encontraram um total de aproximadamente 550 gigatoneladas (Gt) de biomassa de carbono distribuídos entre todos os Reinos da vida, distribuídos em todos os locais do planeta.
Só para se ter um comparativo, 1 Gt equivale a 1 bilhão de toneladas ou 1.000.000.000.000 Kg!
As plantas são os organismos que mais “pesam”, totalizando 450 Gt e que predominam no ambiente terrestre. O Domínio Bacteria vem em segundo lugar com sua biomassa alcançando 70 Gt de carbono, já Archaea alcançam 7 Gt, ambos domínios mais representativos nas profundezas do planeta.
E os animais? Estes alcançam apenas 2 Gt, de modo que os humanos representam somente 18% dessa biomassa (0,06 Gt) e é maior que a biomassa estimada para os mamíferos selvagens (0,007 Gt) e isso corrobora a questão do impacto da humanidade sobre a biomassa global de taxa proeminentes, como outros mamíferos e peixes, por exemplo. Interessante perceber que nós não alcançamos nem os vírus (0,2 Gt).


Os pesquisadores também mostraram que a biomassa terrestre tem duas ordens de magnitude maior que a biomassa marinha e esta possui muito mais consumidores do que produtores.


Para saber mais sobre como os autores realizaram tais análises e estimativas da biomassa (obviamente que eles não saíram pesando a biomassa seca de tudo que viam pela frente em todo o mundo, inclusive você), o artigo pode ser acessado aqui: https://www.pnas.org/content/115/25/6506
A Superinteressante publicou um infográfico bastante interessante com os comparativos de biomassa por táxon.


Dúvidas, críticas e sugestões: lourivaldias@gmail.com
Até!

FONTE:
BAR-ON, Y. M.; PHILLIPS, R. & MILO, R. 2018. The biomassa distribution on Earth. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America. 115 (25): 6506-6511.